Um aumento expressivo nas mortes associadas à influenza em São Paulo voltou a chamar a atenção para uma questão que também vem sendo discutida por alguns profissionais de saúde.
Entre janeiro e maio de 2025, a cidade de São Paulo registrou 121 mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) associada à influenza, contra 77 no mesmo período de 2024 — um aumento de 57,14%. Posteriormente, até 2 de julho, os registros chegaram a 256 mortes por influenza, contra 91 no mesmo período do ano anterior.
Diante desse cenário, o médico Dr. David Rodrigues publicou um alerta nas redes sociais levantando questionamentos sobre a eficácia da vacinação contra a gripe e citando pesquisas que, segundo ele, merecem ser observadas com atenção.
O que diz o estudo da Cleveland Clinic?
Uma pesquisa realizada por pesquisadores da Cleveland Clinic, nos Estados Unidos, acompanhou 53.402 funcionários durante a temporada de influenza de 2024–2025.
Na versão 3 do estudo, os pesquisadores encontraram que o risco de influenza entre os vacinados foi maior do que entre os não vacinados, com um HR de 1,27, equivalente a aproximadamente 27% de aumento no risco relativo. Os autores concluíram que não conseguiram encontrar efeito protetor da vacinação contra a influenza naquela temporada.
Mas existe uma atualização importante.
Na versão mais recente do trabalho, os pesquisadores analisaram também a intensidade da circulação do vírus. O resultado mostrou que, quando a circulação da influenza era alta, o risco de influenza entre os vacinados foi significativamente maior: HR 1,33, ou aproximadamente 33% maior risco relativo.
Quando a circulação era baixa ou média, entretanto, a diferença não foi estatisticamente significativa.
Isso significa que o estudo apresenta um resultado inesperado que merece investigação, mas não prova, sozinho, que a vacina seja responsável por causar gripe.
E o estudo envolvendo crianças?
Outro estudo citado no alerta analisou crianças que receberam vacina inativada contra influenza.
Os pesquisadores observaram uma maior ocorrência de infecções respiratórias causadas por vírus diferentes do influenza entre as crianças vacinadas.
O resultado levantou uma hipótese interessante: a chamada interferência viral. A ideia é que uma infecção pelo influenza possa produzir determinadas respostas imunológicas que influenciem temporariamente a ocorrência de outras infecções respiratórias.
Entretanto, o estudo era relativamente pequeno e seus resultados não são suficientes para afirmar que a vacina provoca doenças respiratórias em crianças.
E as mortes em São Paulo? A vacina foi responsável?
Aqui está o ponto mais importante. Não há evidência nos dados apresentados de que o aumento das mortes em São Paulo tenha sido causado pela vacinação.
O aumento das mortes e o resultado observado no estudo da Cleveland Clinic são acontecimentos que podem ser colocados lado a lado para discussão, mas isso não significa que exista uma relação de causa e efeito comprovada.
Inclusive, dados epidemiológicos de 2026 mostram que a influenza continua circulando e provocando aumento de internações em diferentes regiões do Brasil. A Fiocruz também identificou circulação de outros vírus respiratórios, como rinovírus e VSR, tornando o cenário respiratório bastante complexo.
O que esses estudos realmente mostram?
Os trabalhos levantam perguntas importantes:
🔹 A vacina apresentou o efeito protetor esperado naquela temporada específica da Cleveland Clinic?
🔹 Por que o risco de influenza apareceu maior entre vacinados durante períodos de alta circulação viral?
🔹 Existe algum fenômeno de interferência entre diferentes vírus respiratórios?
🔹 Esses resultados podem ser reproduzidos em outras populações e em outras temporadas?
Essas são questões científicas legítimas e que precisam de estudos maiores e independentes.
O mais importante é separar uma associação estatística de uma relação de causa e efeito.
Os estudos citados são interessantes justamente porque apresentam resultados que fogem do que seria esperado e, por isso, merecem ser investigados.
Uma informação que não pode ser ignorada
A versão 3 do estudo da Cleveland Clinic, compartilhada originalmente nas redes sociais, não é a versão mais recente. O trabalho recebeu uma versão 4, na qual os pesquisadores fizeram análises adicionais e observaram que o aumento do risco ocorreu principalmente durante períodos de alta circulação da influenza.
Portanto, antes de afirmar que “a vacina aumenta a chance de pegar gripe”, é preciso dizer exatamente o que foi encontrado, em qual população, em qual temporada e sob quais condições.
A ciência não deve ter medo de investigar resultados inesperados — mas também não deve transformar uma associação encontrada em um estudo em uma certeza que o estudo não demonstrou.
Fontes de pesquisa
• Cleveland Clinic / medRxiv : Effectiveness of the Influenza Vaccine During the 2024–2025 Respiratory Viral Season; Leia o estudo no medRxiv: (https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2025.01.30.25321421v3)
• Estudo sobre vacinação contra influenza e infecções respiratórias não influenza em crianças — PubMed Central
• Dados sobre mortes por influenza na cidade de São Paulo
"Leia a matéria sobre o aumento das mortes" (https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/mortes-por-influenza-aumentam-quase-60-na-cidade-de-sao-paulo/)
Observação: esta publicação tem caráter informativo e apresenta resultados de pesquisas que merecem ser analisados com atenção. Os estudos citados não comprovam que a vacina cause gripe, doenças respiratórias ou aumento das mortes em São Paulo. Resultados de associação estatística não devem ser interpretados automaticamente como relação de causa e efeito.
